quarta-feira, 30 de setembro de 2009

As cerejas


Daniel e André. Irmãos univitelinos. Daniel, o mais velho, é alto, moreno, olhos claros, 27 anos, solteiro, odeia o emprego e sente inveja do irmão. André, o mais novo, tem as mesmas características físicas do irmão; mas já ao contrário, está noivo, é bem sucedido, adora o emprego e não sente inveja de ninguém. Daniel odeia ser a sombra do irmão, odeia ser o mais velho e mesmo assim ser comparado ao outro, ser confundido com o outro e principalmente, sempre odiou que o nome de André vinha antes na chamada da escola.

Sabendo do perfil dos nossos protagonistas, somos levados para o réveillon de 1999 no Rio de Janeiro, especificamente em Copacabana. André e Daniel estão no apartamento deles se arrumando para a festa da virada (e aqui peço desculpas a Daniel, mas é costume colocar os nomes em ordem alfabética). Daniel vai a cozinha beber vinho e traz para o irmão um cálice, os dois bebem, conversam e subitamente André desmaia. Bem, subitamente para você leitor, porque Daniel já esperava por isso. Na verdade foi ele mesmo que fez o irmão desmaiar, colocara sonífero em seu vinho. Daniel, o mais velho, logo colocou as roupas do irmão (estilos diferentes) e foi para a festa. Chegando lá cumprimentou a todos, disse que Daniel chegaria mais tarde, se chegasse. À Roseli (detalhe querido leitor, esse nome é de origem francesa, o que faz com que sua pronuncia seja com biquinho no “o”, algo como Rôlseli), a noiva perfeita, Daniel deu mais atenção. Na verdade, beijos carinhosos, olhares fogosos, enfim, tudo o que um noivo perfeito faz para a sua noiva perfeita; ele quer passar uma noite com ela.

A festa está animada, todos de branco (como de costume no Brasil, e afinal, de onde vem essa tradição?) e Roseli não era exceção. Estava em um lindo vestido, modelito vindo de Milão, branco, esvoaçado. Ela, Morena, alta, com todos os itens de série que os homens gostam direto da fábrica. Após muitos champagnes, vinhos, cervejas, enfim, destilados e fermentados de todos os tipos; depois também da contagem regressiva, beijos, abraços, promessas e tudo mais que as pessoas fazem no ano novo a festa acabou. André, na verdade Daniel e sua noiva, na verdade a noiva do André (que confusão) saíram. Daniel, como bom cavalheiro que André é, levou Roseli até o apartamento dela. Chegando lá, como boa noiva bêbada, ela o convidou para entrar. Foram para o quarto. Começam a despir um ao outro. Entre os beijos, carícias, sussurros... Roseli pára, fica imóvel, boca aberta...

- DANIEL!, estou bêbada, não cega!

Daniel, tão assustado quanto Roseli não entende nada. Mas é claro, corpos idênticos no nascimento, mas não necessariamente que fiquem assim para sempre. Em um momento fora de si, André fez uma tatuagem de duas cerejinhas vermelhas na nádega esquerda. Ela ficou sem reação, não acreditava que tinha sido enganada, que quase estava pelada na frente do irmão do seu noivo. Ele, não acreditando que não realizaria seu sonho de dormir com a cunhada ficou sem reação. Ela não grita, ele não se meche. Ela bate, dá socos. Ele continua a não fazer nada. Ela bate mais ainda. Ele então olha fixamente para ela e leva as mãos a garganta. Ela estranha sua reação. Ele dá alguns passos para trás, solta grunhidos, fica roxo, cai de joelhos. Ela entende menos ainda, se ajoelha, sacode o tronco dele. Ele cai de boca aberta. Já não esboça mais reações, não respira, não lacrimeja, não nada. Ela senta. Fica quieta, não entende. Passa as mãos pelo rosto dele. Estava com raiva, mas não queria um desfecho desses. Eis que percebe que a unha postiça vermelha do dedo anelar da mão esquerda não está mais lá. Começa a olhar no chão ao redor. Não acha. Até que vê de relance uma coisa brilhante no fundo da garganta dele. Lá, lá está a unha postiça vermelha, e a causa da morte...


Monólogo ao mundo



Os dois estão de pé. Ela está falando olhando para o infinito.

ELA
(gritando)
Eu quero fugir! Fugir de tudo e de todos!
Quero explodir o universo!


Ele levanta os olhos. Os olhares se encontram.

ELA
(sussurando)
E... (pausa) quando estou com você é
como se tivesse um universo... um universo
paralelo onde não importa nada nem ninguém...
(ele coloca a mão no entre o rosto e o pescoço dela)
Seus beijos me carregam pelo tempo... (pausa)
Quando estou com você nada mais importa...
(ela olha para baixo)
Um universo todo meu....
(ele a beija)